segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Fé e Ciência

Deus no Big Bang? 


Teólogos, Filósofos e Físicos conversam sobre a pergunta.


A descoberta do Bóson de Higgs está tão fresca que a exibição no museu da Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (Cern) ainda não se atualizou. No trabalho exposto – um curta-metragem que projeta imagens do nascimento do Universo numa enorme tela – o narrador pergunta: “Encontraremos o bóson deHiggs?

Agora que finalmente foi visto – uma descoberta científica que nos aproxima mais do que nunca dos primeiros momentos após o Big Bang , a Cern abriu suas portas para eruditos que assumem um enfoque muito diferente para a pergunta a respeito da forma como se criou o Universo.

Em outubro, um grupo dteólogos, filósofos e físicos se reuniu dois dias, em Genebra, para falar sobre o Big Bang.

O que aconteceu quando pessoas de tão diferentes visões do Universo se sentaram para discutir?

“Dei-me conta de que era necessário discuti-lo”, disse Rolf Heuer, diretor geral da Cern“Precisamos, como cientistas ingênuos, discutir com filósofos e teólogos o tempo anterior ao Big Bang”.

A primeira pessoa a propor a teoria do Big Bang foi um sacerdote católico, Georgs Lemaitre, que também era professor de física na Universidade Católica de LovainEm 1931, num trabalho acadêmico, propôs que o Universo em expansão deveria ter se originado num ponto finito no tempo. Para ele, os seus interesses religiosos eram tão importantes como a sua ciência, como presidente da Academia Pontifícia de Ciências, de 1960 até a sua morte, em 1966.

CharleDarwin, de quem se pode dizer que deflagrou o debate da religião versus ciência, lutou com sua própria fé. Darwin cresceu na fé anglicana e em seus diários de exploração, em seu barco, o Beaglereferiu-se a si mesmo como “bastante ortodoxo”. Em sua autobiografia, Darwin escreveu: “O mistério do princípio de todas as coisas é insolúvel para nós; e de minha parte devo me conformar em permanecer como agnóstico”.

Um dos organizadores da Cern, desta reunião incomum, foi Wilton Park, um fórum global estabelecido porWinston Churchill. Trata-se de uma organização usualmente associada com discussões de alto nível sobre política global e, inclusive, confidenciais, sobre assuntos de segurança internacional, que talvez enfatize o quão seriamente a Cernconsidera este encontro.

Contudo, a própria ideia de um “tempo antes do Big Bang” é um território impossível para os físicos. É uma área de pura especulação; antes do tempo e o espaço como os cientistas os entendem, e onde as leis da física se rompem completamente.

Então, fazem isso num âmbito em que a ciência e a religião possam se entender? Um dos participantes mais francos, Lawrence Krauss, um físico teórico e diretor do Projeto Origens, na Universidade Estatal de Arizona, afirma que definitivamente não. “Numa reunião como esta, alguém tem a impressão de que Deus importa aos cientistas; mas, não”, aponta.

Entretanto, a sugestão de que ciência e religião são fundamentalmente incompatíveis foi motivo de discórdia durante a reunião. John Lennox, professor de matemática na Universidade de Oxford, também se declara cristão. Ele pensa que apenas o fato dos seres humanos poderem fazer ciência é uma evidência para Deus

“Se os ateus têm razão de que a mente faz ciência… é o produto de um processo não guiado, sem sentido”. “Agora, se soubesse que seu computador é produto de um processo não guiado, sem sentido, não confiaria nele”. “Por isso, para mim o ateísmo mina a racionalidade de que necessito para fazer ciência”.

Porém, este debate aparentemente insolúvel, de Deus versus a ciência, foi apenas uma parte do encontro.Heur expressou que desejava que os participantes “desenvolvessem um entendimento comum” da visão dos demais.

Todavia, até mesmo intercambiar em alguns momentos foi fastidioso; cientistas e filósofos costumam falar linguagens muito diferentes. 

A descoberta de uma “partícula de Higgs” precedeu este encontro de religiosos e cientistas.

Andrew Pinsent é diretor de pesquisa no Centro Ian Ramsey para a Ciência e a Religião, da Universidade de Oxford. É também um físico treinado, que já trabalhou na Cern. “Temos que nos educar mutuamente nos termos que usamos”, disse. Por exemplo, explica, “os filósofos estiveram discutindo o significado da [palavra] verdade durante séculos”. Porém, para muitos físicos, usar essa palavra é um território incômodo quando falam sobre o que sabemos do Universo e do Big Bang.

Krauss afirma que a palavra está no centro de “uma das diferenças fundamentais entre ciência e religião”. “Os que são religiosos acreditam que conhecem a verdade”, aponta. “E sabem a resposta antes de existir a pergunta. Com os cientistas é exatamente o contrário”. “Na ciência, embora usemos a palavra verdade, o que realmente importa é se funciona”. “Por isso, é um assunto sensível, porque se você sabe a verdade, não precisa lidar com esta perguntinha sobre se algo funciona ou não”.

Apesar da barreira entre visões opostas do mundo e léxicos incompatíveis, Pinsent acredita que colaborar com a filosofia poderia ajudar a ciência a enfrentar melhor as perguntas muito grandes. “Num quarto de século, não houve novos avanços conceituais na física”, afirma. Acrescentando que isto, em parte, é porquea ciência isolada “é muito boa para produzir coisas”, mas não para produzir ideias”.

Evoca Einstein como exemplo de um cientista verdadeiramente filosófico. “Ele começou formulando as perguntas que uma criança faria”, assinala Pinsent, “como: ‘o que seria cavalgar sobre um raio de luz?’”

Heuer aceita a ideia de levar filosofia à própria Cern. “Não iria tão longe como deixá-los fazer experimentos aqui”, brinca, “mas não seria nenhum problema ter um filósofo residente”.

A principal conclusão do evento foi simples: continuar conversando. “Enfrentamos um problema em nossa cultura de hiperespecialização”, destaca Pinsent. “Esta ignorância de outros campos pode causar problemas, como uma carência de coesão social”.

E embora Krauss tenha dito que a reunião às vezes foi sentida como “de pessoas que não podem se comunicar ao busca se comunicar”, vê algum valor neste intercâmbio. “Muita gente de fé vê a ciência como uma ameaça”, aponta. “Não acredito que a ciência seja uma ameaça, por isso é útil para os cientistas mostrar que não veem necessariamente dessa forma”.

Como disse um colaborador durante o encontro: “a religião não acrescenta aos fatos científicos, mas dá forma para nossa visão do mundo”. E como a Cern está buscando pistas sobre como existiu o mundo para começar, deseja ver como suas descobertas se encaixariam em qualquer visão do mundo

Fonte: Religión Digital

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Fé e Razão

História confirma: 

As universidades são 

uma dádiva da Igreja 

católica para o mundo.


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A IGREJA CATÓLICA CRIOU AS UNIVERSIDADES SIM OU NÃO?
Uma resposta ponderada
“A fé na possibilidade da Ciência, gerada, antes do desenvolvimento da teoria científica moderna, constitui uma derivação inconsciente da teologia medieval.” (Alfred North Whitehead).
A Internet é um mundo, às vezes me deparo com coisas surpreendentes, algumas para o bem, outras para o mal. Nessas navegações pelo Facebook, no perfil pessoal de uma jovem protestante conservadora ouvi pela primeira vez o nome Lucas Banzoli, não dei muita confiança. Entretanto, percebi que a jovem em questão estava radicalizando sua posição, tentei debate com elegância e sem radicalismo. Fui expulso do hall de suas amizades. Então, descobri um blog chamado “Heresias Católicas”, pertencente ao Banzoli, o termo “heresias” nome por si só um paradoxo, já que aquele que afirma há uma heresia deve provar primeiro que tem uma ortodoxia ao seu lado. Até aí, nada de novo, já que todos os dias surgem novas “ortodoxias”, cada grupo defende como verdade.
Contudo, não pretendo desconstruir todos os artigos do site, pois não é do meu interesse e nem tenho tempo para isso. Mas efetivamente um artigo me chamou a atenção, que sem apresentar uma historiografia atualizada e pertinente, tenta desmentir a afirmação que a Igreja católica criou as universidades[ii]. No artigo intitulado “A Igreja Católica criou as universidades!!!!”[iii], o autor diz que essa afirmação é de papistas, mais precisamente de Thomas Wood. Peraí! Não é afirmação “errada”, mas fruto da pesquisa de Woods, cuja interpretação pode ser exagerada, mas não imprecisa. O texto de Banzoli tenta menosprezar a afirmação de que a Igreja não inventou as universidades, e eu vou desconstruir isso e faço com uma argumentação baseada em diversos pesquisadores vinculados a História da Ciência (não sei a religião deles e nem procurei saber), como Grant e Haskins. Faço várias considerações, com informações que permitirão ao leitor fazer uma conclusão embasada.
Então, preparei algumas refutações, mas vocês perceberão que fujo bastante das indagações do site. Isto se deve a minha proposta de não ficar só questionando as afirmações do artigo em questão, mas de apresentar coisas novas vinculadas a uma historiografia moderna (que não é tão moderna assim). Então, vamos algumas contestações:
  • Uma das afirmações é que UNESCO cita que a primeira universidade do mundo foi a Universidadeal Quaraouiyine, digo que é completamente contestável. Há vários poréns nisso, As “universidades” islâmicas era madrassas (GRANT 2009, p. 123), centros de estudo religioso, e apesar da Europa dever aos comentaristas muçulmanos de Aristóteles, a filosofia natural no mundo islâmico já havia caído em declínio devido as imposições teológicas o Islã (Idem, p. 121). A ciência islâmica já estava em decadência. Dizer, como a UNESCO, que as primeiras universidades nasceram no mundo muçulmano é mais um posicionamento político da instituição do que um fato histórico.
  • A acusação ao Trivium é descabida, que já existia desde Antiguidade, aperfeiçoado e padronizado pelos pensadores vinculados a Igreja durante a Idade Média. O autor não afirma que o estudo das artes liberais foi invenção da Igreja, mas que seu ensino nas Universidades era apenas um simples jogo de retórica. Por que é descabido? Porque usa o Trivium como falácia do espantalho, as universidades não apenas estudavam-no como também a filosofia natural aristotélica, a partir do século XII. Podemos deduzir, por causa disso que o estudo das artes liberais não era um entrave ao conhecimento científico. Hoje finalmente temos acesso, em português, a obras sobre o Triviume o Quatrivium pela editora É Realizações. Sua publicação já é uma vitória contra o desprezo que a academia brasileira tem ao conhecimento medieval levando a um público especializado e não-especializado a riqueza de nossas tradições.
  • Cita o padre Claude Fleury, um pré-iluminista e janseanista (por isso sua visão tão pessimista), autor de uma obra de mais de 400 anos, fonte de boa parte do artigo. A obra é crítica a igreja, recebeu até elogio de Voltaire (isso diz muito). A Historiografia atual, moderna procurou ser livre do ranço dos preconceitos iluministas e liberais. Hoje, a renovação da escrita histórica quebra com muito dos preconceitos sobre a Igreja Católica. Podemos perceber, no artigo do Banzoli, uma bibliografia uma historiografia antiquada, sendo que a obra mais recente citada tem 72 anos.
  • As universidades, as catedrais e os parlamentos são frutos da Idade Média (HASKINS, 2015, p.17). Há vários erros como, por exemplo, usar como fonte um livro sobre as Cruzadas, de 1944, onde ele retira partes do texto para evidenciar a falta de cultura na Idade Média. Segundo a opinião de um professor medievalista da Federal do Espírito Santo sobre o livro: “Na ocasião, eu o li quase como um romance, pois, apesar de conter informações verdadeiras, o autor não indica as fontes.” A bibliográfica é antiga e desatualizada. Impresso muito antes das reformas do ensino de história brasileiro
  • Se a igreja Católica não criou (no pior dos casos), pelo menos apoiou, supervisionou, padronizou, deu aval e subsidiou. As universidades têm seu núcleo inicial nas guildas medievais de estudantes e professores. Isso na renovação cultural dos séculos XII (HASKINS, 2015, p. 20). Os imperadores e os Papas deram legitimidades a essas instituições, e por muitas vezes gerenciaram os conflitos entre os estudantes e a população local, muitas vezes belicoso (não é que estudante é o mesmo não importa a época?).
  • O que nos diz uma literatura como a de Edward Grant? Grant no escreve que a criação das universidades foi um evento único na História da Europa Ocidental, mas também único na História do mundo (GRANT, 2009, p. 190). As universidades de Bolonha, Oxford e Paris foram as primeiras. Claro que nenhuma universidade poderia ser fundada sem uma congregação de professores e aluno relativamente grande, e a universidades foram um fenômeno urbano. A Igreja e o Estado na idade Média tornaram possível que indivíduos formassem corporações que como entidades ficcionais e com direitos legais (Idem, p. 191). As universidades medievais permitiram uma estabilidade para o ensino de filosofia natural, e isto permitiu que se desenvolvesse nas quatros áreas que a compunha, artes, teologia, medicina e direito (Idem, p. 191).
  • Ainda há uma acusação de as aulas não eram nada científicas e voltadas a mistérios metafísicos. Outro engano, por exemplo, e o do católico Galileu que influenciado pelo seu mentor Francesco Buonamici, Galileu acreditava em respeitar o papel fundamental da experiência e estabelecer regras para conhecer os fenômenos. Na revista da Scientifican American, edição especial sobre Galileu Galileino seu segundo capítulo intitulado “o mundo sensível”, chama a atenção a declaração de que a filosofia natural, do século XVII, havia abandonado a metafísica para explicar os fenômenos. Entretanto, essa separação já era observada há algum tempo pela academia, desde o surgimento das universidades medievais, segundo Edward Grant.
  • Segundo o professor de matemática Alfred North Whitehead (1861-1947) três os fatores que chamam atenção para uma mudança de paradigma que aconteceu no século XVI e XVII: o aparecimento da (nova) matemática; a crença em uma ordem na natureza; e o racionalismo da alta Idade Média (WHITEHEAD, 2006, p. 57). Esses fatores levam ao abandono dos antigos métodos para o estudo baseado em dados empíricos.
Os últimos parágrafos do texto são repletos de ódio ao catolicismo e de triunfalismo protestante, vamos a algumas verdades: não foi a Reforma Protestante que deu algum avanço social e econômico aos países protestantes, foi a Revolução Industrial. E a Revolução Industrial não foi um movimento ocasionado por melhorias educacionais nesses países por causa da leitura da Bíblia. Até o final do século XIX esses países do norte da Europa continham uma grande massa de analfabetos. A Revolução industrial que deu a esses países as melhorias, que nasceu da necessidade metalista, do acumulo de ouro e prata, coisa que a Inglaterra por não ter colônias ricas em metais preciosos se especializou para obtê-los através do comercio e da industrialização. Esses eram movidos pelo lucro e as descobertas científicas eram motivadas por isso também. Claro que houve avanços educacionais nos países protestantes, porém, em tese é a educação universitária a ponta de lança de qualquer transformação econômica de um país.[iv]
Enfim, não estamos dizendo que a Igreja católica foi a única responsável pela criação das universidades, mas sem ela as universidades não existiriam. Contundo, nascem num ambiente cultural fomentado pela Igreja e pelo renascimento urbano. As guildas de estudantes e professores jamais teriam sucesso sem o apoio e a universalização que a Igreja fez por toda a Europa. O que posso dizer é que invés de ficar procurando triunfalismo para um ou outro ramo no cristianismo é necessário ser dialético no estudo do passado. Não adianta denegrir um para colocar no pódio mais alto o outro, porque a história vai derrubar as certezas, ainda mais quando estudada com cuidado e respeito às fontes.
Bibliografia
GRANT, Edward. História da Filosofia Natural: do mundo antigo ao século XIX. São Paulo: Masdras, 2009.
HASKINS, Charles Homer. A Ascensão das Universidades. Balneário Camboriú: Livraria Danúbio Editora, 2015.
NUMBER, Ronald L (org.). Galileu na Prisão: e outros mitos sobre ciência e Religião. Lisboa: Gradiva, 2012.
WHITEHEAD, Alfred North. A ciência e o mundo moderno. São Paulo: Paulus, 2006.
Por Rogério Fernandes da Silva[i]
[i] Licenciado em História (UERJ) e professor de História da rede pública estadual do RJ, Mestre em Ciências da Religião (PUC-SP), Doutorando em Humanidades, Culturas e Artes (UNIGRANRIO).
[ii] O termo universidade vem de universitas societas masgistrorum discipulorunque , nome dado as guildas de mestres e estudantes (HASKINS, 2015, p.25).
[iv] Dois exemplos no século XX são a Índia e Brasil, o primeiro país fez um reforma educacional priorizando o ensino superior, ao ponto, nas  décadas de oitenta, países ocidentais, como EUA e Inglaterra, importarem cientistas indianos para seus grandes centros universitários. A Índia reformou o Ensino Superior, mas não acabou com a grande desigualdade social de seu país. Mas o Ensino Superior a transformou numa potência regional.  O Brasil durante o período de crescimento (2002-2010) passou por problemas relativos a mão-de-obra, não havia mão-de-obra qualificada para as indústrias e tivemos que importar. Isso é um indicativo que um país pode crescer sem está preparado no quesito base educacional, visto que o Brasil não investia qualitativamente em sua base de ensino a anos. Povo mais alfabetizado não gera riqueza, é preciso investimento em tecnologia que se alcança num nível universitário, ou seja, pesquisa acadêmica de ponta.