domingo, 3 de novembro de 2013

Fé e Ciência - 01

* A Bíblia e a ciência: A Igreja Católica não defende a interpretação literal de toda a Bíblia, como alguns pensam.

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O falso conflito entre ciência e fé foi incentivado recentemente, como sabemos, pelo chamado “novo ateísmo”. O argumento de que, nos Estados Unidos, os cristãos tentaram fazer do criacionismo uma teoria científica equiparável ao evolucionismo, e que seria ensinado nas escolas, serviu de pretexto aos negacionistas (ateus beligerantes) para apontar os cristãos como ignorantes, intransigentes e incompatíveis com o conhecimento que temos hoje graças à ciência.
 
A chave do conflito parece encontrar-se na aparente contradição entre o texto bíblico (em particular, o Antigo Testamento) e o estado atual das ciências. Se interpretarmos literalmente o texto sagrado, sem dúvida alguma haverá uma distância intransponível entre o que ele nos diz e o que sabemos pela ciência.
 
No entanto, qualquer católico com alguma formação doutrinal sabe que a Bíblia não pode ser interpretada no sentido literal. O literalismo bíblico é alheio ao catolicismo; é consequência da reforma protestante do século XVI. Não é de se estranhar, então, que tanto os criacionistas como os impulsores do novo ateísmo sejam anglófonos, pertencentes ao âmbito cultural protestante.
 
A nós, católicos, o conflito ciência-fé (que, na realidade, é uma batalha criacionismo-ateísmo) chega como rebote, ainda que a preponderância bibliográfica e audiovisual norte-americana e a confusão entre criacionistas e “todos os cristãos” tenha nos colocado em uma guerra que, na verdade, não tem a ver conosco.
 
Ainda existem aqueles que pensam (levados pela ignorância, como Dawkins, Dennet ou Harris) que a visão católica em relação aos textos bíblicos é uma impostura. Que, na realidade, os católicos são mais habilidosos que certos protestantes e que reagimos a tempo, com tal de que o fogo não incendiasse toda a casa. Dessa maneira, acreditam que o catolicismo deixou de ser literalista com a Bíblia quando – e só a partir disso – se demonstrou pela ciência que a leitura literal é insustentável.
 
Mas a leitura literal dos textos bíblicos nunca pertenceu ao catolicismo. Não é que há 100 ou 200 anos os católicos começaram a buscar formas de sustentar sua fé e torná-la compatível com os conhecimentos que as ciências iam proporcionando. Não. Desde o começo, a Igreja nos ensina que a Bíblia tem especialmente um significado alegórico, que deve ser interpretado: Deus fala ao ser humano, mas ao ser humano de todas as épocas.
 
Orígenes (século III) chegou a dizer que era imbecilidade, por exemplo, acreditar que, quando o Gênesis diz que Deus criou o mundo em seis “dias”, deveríamos interpretar esta palavra segundo seu uso habitual (ou seja, um lapso de tempo composto por 24 horas). Orígenes [1], Ambrósio de Milão [2], Basílio o Grande [3], Agostinho de Hipona [4], Bom-Aventura, Tomás de Aquino [5] são notáveis exemplos do que estamos dizendo. Por outro lado, os católicos dispõem, desde Jerônimo, uma longa tradição de trabalho exegético.
 
Isso tampouco significa que a Bíblia não contenha, logicamente, passagens de veracidade histórica. a Arqueologia progrediu muito neste sentido, corroborando em muitas delas. E inclusive milagres, como o da divisão das águas, narrada no Êxodo, encontram apoio científico hoje. Basta ler os trabalho de Humphreys, da Universidade de Cambridge, ou do pesquisador atmosférico Carl Drews sobre o “golpe de vento” e a “onda perfuradora” para comprovar sua facticidade física (mantendo, portanto, o milagre na sincronização: é algo possível fisicamente, mas o extraordinário, milagroso, seria que houvesse ocorrido justamente quando era necessário).
 
A manipulação obsessiva e obscena do caso Galileu e da instituição da Inquisição por parte dos negacionistas quis fazer esquecer essa tradição inerente ao ser católico, com a intenção de deslegitimar nossas crenças e suscitar um conflito ciência-fé que, de forma alguma, é o abordado por este reduto de intelectuais ateus. Talvez tenham conseguido entre o grande público, com escassa formação doutrinal, impor a imagem derivada de tal manipulação. Daí que seja imprescindível um trabalho de pedagogia, encaminhado a colocar as coisas em seu exato lugar.
 
Dito tudo isso, tampouco é aceitável para o catolicismo que a ciência pretenda tornar-se a única fonte possível de conhecimento (dado que então estamos não diante da ciência em sentido estrito, mas diante do cientificismo). Em primeiro lugar, a ciência tem limites epistemológicos intransitáveis pelo ser humano.
 
Em segundo lugar, a compreensão total das perguntas últimas não corresponde à ciência, porque vai além do método científico.
 
Em terceiro lugar, a ciência não é neutra em relação aos processos de pesquisa. É financiada (e, portanto, dirigida) com propósitos alheios a ela (a empresa, a política, a ideologia), que determinam a direção dos programas de pesquisa e, portanto, suas conclusões. E reage defensivamente contra qualquer progresso cognitivo que contradiga o paradigma estabelecido, como demonstrou Kuhn.
 
Acrescentemos a estas objeções, por último, que a ciência tem dificuldades inerentes para estabelecer verdades. Uma coisa é a certeza e outra coisa a verdade. A verdade é, por definição, objetiva e invariável; mas, dado que a ciência é sempre suscetível de refutação, como demonstrou Karl Popper, seria ilógico depositar uma confiança cega em teorias que podem ser superadas mais à frente (e, de fato, na atualidade, sabemos que o paradigma da física atual, a mecânica quântica, será superado quando encontremos um meio de compatibilizá-la com a teoria da relatividade).
 
Neste mesmo sentido, cabe dizer que o “dado” científico é suscetível de interpretações que, em última instância, dependerão do observador, razão pela qual é impossível uma objetividade absoluta em suas conclusões, quando vão além de proporcionar precisamente isso: o dado puro e simples.
 
A ciência é um método de conhecimento altamente positivo. Permitiu-nos progredir na compreensão da realidade que nos cerca, e suas conquistas técnico-práticas, como a indústria, as telecomunicações e a saúde, são indiscutíveis. Mas a ciência não é o único meio de conhecimento possível. Ela demorou mais de dois mil anos, por exemplo, para demonstrar as teorias atomistas que, por meio da razão, foram abraçadas pelos filósofos pré-socráticos.
 
Entronizar a ciência como única fonte do saber é, sem dúvida, um fundamentalismo semelhante ao que sustenta a leitura literal dos textos bíblicos. É por isso que alguns autores denominaram o novo ateísmo como “ateísmoevangélico”.

1) Sobre el primero de los principios, IV.ii.5, IV.iii.4
(2) Hexameron L.iv.16
(3) Hexameron I.iv, I.viii, I.xi
(4) Contra Fausto el Maniqueo, 32.20; Confesiones, XIII.xv
(5) Summa Theologiae 1a, 1, 10.

© 2013 – Pepe de Rosendo para o Centro de Estudos Católicos - CEC

domingo, 22 de setembro de 2013

Fé e Ciência

Arqueólogos encontram “cidade perdida” mencionada nos Evangelhos: Dalmanuta.

http://en.wikipedia.org/wiki/File:Ginosar_BW_7.jpg
Segundo o site acadêmico LiveScience, uma “cidade perdida”, descrita nos Evangelhos, pode finalmente ter sido encontrada. Dalmanuta é o lugar para onde Jesus partiu após ter feito a multiplicação de pães e peixes que alimentou uma multidão. O capítulo 8 de Marcos afirma: O povo comeu até se fartar. E ajuntaram sete cestos cheios de pedaços que sobraram. Cerca de quatro mil homens estavam presentes. E, tendo-os despedido, entrou no barco com seus discípulos e foi para a região de Dalmanuta”.
Contudo, a passagem correspondente de Mateus 15:39 diz: “Tendo despedido a multidão, entrou no barco, e dirigiu-se ao território de Magadã”. Essa menção fez com que durante séculos os estudiosos pensarem se tratar da cidade que hoje é chamada de Migdal.
Também conhecida por Magdala, está situada ao noroeste do Mar da Galileia, no vale de Genesaré. O local é mais conhecido por sua associação com Maria de Magdala, apelidada de Madalena. 
Ken Dark, da Universidade de Reading, cuja equipe descobriu as ruínas dessa cidade defende que se trata de Dalmanuta, uma “cidade perdida” para a arqueologia. Ele e sua equipe querem comprovar a teoria por causa de uma embarcação de 2.000 anos de idade que foi encontrada na região em 1986.(foto acima) Até hoje é o mais famoso artefato associado à área, o famoso “barco de Jesus” poderia não ser de Magdala, mas sim da cidade vizinha de Dalmanuta. Elas ficavam a cerca de 200 metros uma da outra. Isso sugere que os dois evangelistas apontavam para a mesma região, mas não para a mesma cidade.
A exploração encontrou cerâmica antiga e uma série de fragmentos de colunas, incluindo peças esculpidas no estilo coríntio. Os testes de radio carbono permitem que muitos dos artefatos encontrados comprovem sua idade. Alguns deles, ânforas de vidro, indicam que seus antigos habitantes eram ricos. Vestígios de âncoras de pedra, juntamente com a localização próxima à praia, ideal para barcos, indicam que a população se dedicava à pesca. São as ânforas e as âncoras que ligariam a cidade ao chamado “barco de Jesus”.
A teoria é apresentada na edição de setembro da revista científica Palestine Exploration. Análises do material indicam que a cidade era próspera e provavelmente sobreviveu por séculos. A data das peças de cerâmica indicam que ela existiu pelo menos entre o primeiro e o quinto século. A comunidade judaica provavelmente vivia ao lado de um povo politeísta, como indicam os fragmentos de vasos de calcário. Segundo Dark, isso seria a realidade da região no início do período de dominação romana.
Embora reconheça não ser possível a comprovação inequívoca que a cidade recém-descoberta é a Dalmanuta bíblica, para ele é um dos poucos nomes de lugares desconhecidos por pesquisadores. Além disso, está no Vale de Genesaré, um sítio arqueológico “amplamente negligenciado”. A pesquisa de Dark utilizou, além do sistema tradicional, fotos tiradas de satélites para estabelecer mudanças na topografia.
Como no campo da arqueologia tudo ocorre muito lentamente e sempre surgem questionamentos, é provável que demore alguns anos antes de as teorias da equipe do doutor Dark sejam totalmente comprovadas.
 Com informações de RT, Christian Origins e Live Science.
Fonte:www.comshalom.org

Imperdível!

Imagens incríveis da criação de Deus em HD.


sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Ciência e Fé

* Igreja ‘contra’ a ciência? Durante quinze séculos o catolicismo ostentou a liderança mundial na pesquisa científica!

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A Igreja nos ensina que, se a fé está “acima” da razão, “não poderá nunca existir contradição entre a fé e a ciência, porque ambas têm origem em Deus” (Compêndio do CIC 29). João Paulo II se referiu à contribuição que uma poderia oferecer à outra: “A ciência pode purificar a religião do erro e da superstição; a religião pode purificar a ciência da idolatria e dos falsos absolutos. Cada uma delas pode introduzir a outra num mundo mais vasto, num mundo em que ambas podem florescer”. 
Durante quinze séculos, a Igreja ostentou a liderança na pesquisa científica.
 Nada surpreendente, já que vários cargos eclesiásticos permitiam dedicar-se à ciência, muitas vezes facilitada pelo contexto monástico, com sua relativa serenidade, suas bibliotecas e seu pessoal letrado.
No século XIII, Alberto Magno incentivou a pesquisa… mineralógica. A suposta hostilidade da Igreja com relação a toda forma de conhecimento diferente do das Sagradas Escrituras é, portanto, um preconceito obscurantista!
Em 1543, foi um clérigo, Nicolau Copérnico, quem dedicou o seu De revolutionibus orbium coelestium ao Papa Paulo III, e nele redescobriu o heliocentrismo. Mas este interesse pela ciência não acaba no Renascimento. Em pleno século XIX, foi um monge, Gregor Mendel, quem formulou as leis da herança. Grandes sábios, como Pascal, Ampère, Pasteur e Eduardo Branly professavam a fé católica. Ainda hoje, a Academia Pontifícia das Ciências reúne estudiosos do mundo inteiro, e os trabalhos do Observatório Astronômico do Vaticano têm autoridade. A Igreja coopera com prazer com os não-crentes e com ateus na pesquisa filológica e arqueológica das fontes bíblicas. Isso deveria ser suficiente para estabelecer que não há oposição entre a fé católica e a ciência.
O que existe, no entanto, são preconceitos de alguns homens de fé com relação à ciência, e de alguns homens de ciência com relação à fé. Sem dúvida, houve e pode haver ainda, na Igreja, pessoas que consideram o progresso científico como uma ameaça. Já houve – e há ainda – no mundo científico, estudiosos que consideram que ciência e fé, longe de serem boas amigas, estão em concorrência direta. A uns e outros, pode-se propor a seguinte exortação: “Não tenham medo da verdade!”. Descobrir a verdadeira lei da queda livre dos corpos, como Galileu fez, é algo bom. Perguntar-se sobre o que pode levantar o homem da sua Queda também é algo bom!
Não há o que temer: “A verdade não pode contradizer o bem”. É preciso distinguir, portanto, o âmbito de competência do Magistério da Igreja e o da pesquisa científica. Fazer astronomia e calcular as trajetórias das órbitas planetárias é uma coisa; perguntar-se como se chega ao Céu é outra. Quando um cientista católico estuda astronomia, não estuda “astronomia católica”. Já não existe ciência católica nem ciência budista. A revelação judaica – e depois o seu cumprimento no cristianismo – não pretende substituir a pesquisa científica. Como bem disse o cardeal Baronio, a quem Galileu citava com prazer, “a Bíblia nos ensina como chegar ao Céu, e não como está o céu”.

A separação de responsabilidades está em perigo quando o Magistério pretende proibir ou suspender a divulgação de uma verdade científica. Isso aconteceu, por exemplo, com Galileu, mas por razões muito políticas, já que alguns estudiosos da Cúria Romana estavam certos dos seus pontos de vista científicos.
 

A autonomia das competências também é violada quando um cientista extrapola os resultados da sua pesquisa ao âmbito da metafísica e da religião. Nenhuma ciência é competente para falar da criação do mundo (que não é um acontecimento físico, mas a dependência, de tudo o que existe, de um Criador). Nenhuma ciência é competente para decidir sobre a existência de Deus (que é um ser sobrenatural, até que se demonstre o contrário – quando as ciências da natureza tratam somente de entidades e de leis naturais). Quando a ciência pisoteia as flores da religião, cai no cientificismo. A Igreja não é contra a ciência, mas contra esse cientificismo.

Fonte: Comunidade Católica Shalom

domingo, 18 de agosto de 2013

Formação

* O homem moderno busca a religião para “se sentir bem”, não para encontrar a VERDADE e por ela se deixar transformar.


Fábio Blanco – advogado e teólogo.
A religião ideal para a modernidade é áfona, retraída, irrelevante.
No fim, são os antirreligiosos que assumem o papel de profetas, de pregadores, de donos da verdade.


Esperar moderação de um religioso é negar-lhe o que ele possui de mais característico: a posse de uma cosmovisão totalizante. O que é uma religião senão uma explicação da existência, do universo e das razões últimas das coisas? E se explica tudo, tudo abarca. Nada, dessa forma, se encontra fora do seu campo de interesse, nada deixa de ser penetrado por ela. Por isso, não existe laicidade para o religioso, já que nada se encontra separado de sua fé. Sendo assim, buscará “impor” o que acredita ser o melhor para todos. E se o melhor se encontra no que sua própria religião ensina, é em favor disso que lutará.

E antes que os apóstolos deste século reclamem dessa impostura beata, saibam que nem mesmo os maiores adeptos da laicização escapam desse desejo de a todos impor o que acreditam. Os valores podem ser diferentes, mas o objetivo é o mesmo. Ninguém que atua em jogos políticos faz isso para ver os interesses dos outros aplicados. Cada um busca impor seus próprios interesses. Se puderem, farão que todos aceitem suas ideias.  Se não puderem, aguardarão o momento certo de fazer isso. Pensando dessa maneira, qual a diferença entre abortistas que requerem o chamado direito de escolha e fiéis que lutam pelo direito à vida? Em termos práticos de política, nenhuma. Todos buscam impor suas convicções. E para isso existe a política.
Quando um religioso atua politicamente, o mínimo que se espera dele é que tente impor seus valores também. Seria até injusto, enquanto todos lutam para verem suas convicções aplicadas, apenas o religioso não poder fazer isso. Ele, sem ferir a liberdade comum, deve lutar até o fim para aquilo que ele acredita ser o melhor, aquilo que representa o bem, seja recepcionado pelas normas de seu país. O religioso, em sua atuação política, não faz nada diferente de ninguém. O que ele busca é o que todos buscam: a imposição de regras para uma sociedade melhor. O problema é que cada um tem a sociedade ideal segundo suas próprias convicções.
Portanto, quando alguns atores políticos esperneiam contra os religiosos na política, fazem isso apenas como tática para desmoralizá-los, para afastá-los do jogo e, por fim, acabar impondo suas próprias ideias. Na verdade, eles sabem que suas próprias atuações em nada diferem da dos pastores e leigos  que publicamente se movem no mundo da política. Teoricamente, todos estão trabalhando por uma sociedade melhor, segundo suas próprias convicções do que é melhor.
Por que um religioso afirmar que aborto é crime se torna uma imposição sufocante e afirmar que afirmar isso é crime não é? São duas faces da mesma moeda. São duas visões que lutam para se impor. Por que, então, apenas o religioso é visto como um louco fascista tentando enfiar goela abaixo suas convicções? Na verdade, todos querem fazer isso, e se não fazem é apenas porque não conseguem.
Porém, de alguma maneira, eu compreendo porque as coisas acontecem desse jeito. Lembremos que vivemos em um mundo moderno. Neste mundo moderno, a religião também é moderna. Sendo moderna, seu papel é ser uma opção, não uma explicação. O homem moderno busca a religião para se sentir bem, não para saber a verdade.
A religião moderna é, com efeito, uma mera expressão da subjetividade. Não trata de valores universais, de uma explicação da existência. Religião é apenas um refúgio, para o homem moderno se esconder de vez em quando, aliviando as tensões acumuladas em sua vida laica.
Essa é a religião que eles querem, a religião de uma Nova Ordem: sem vocação política, sem soluções para os homens. A religião ideal para a modernidade é áfona, retraída, irrelevante.
No fim, são os antirreligiosos que assumem o papel de profetas, de pregadores, de donos da verdade. São eles que se apresentam como os portadores das virtudes que devem ser impostas a todos. São eles que sabem o que é melhor para o mundo. Eles são os promotores do bem.
E o que eles esperam da religião é que ela seja uma expressão de fé tão íntima e tão pessoal que não tenha capacidade de oferecer qualquer resposta aos problemas da sociedade. Na verdade, querem que ela seja apenas morna, talvez para que, no fim, seja vomitada pelo seu próprio Deus.

Fonte: Comunidade Católica Shalom

Games violentos: Qual a postura cristã diante disso?


Em boa parte dos games há violência, de uma forma ou outra. Existe o inimigo, e é preciso acabar com ele, seja matando extraterrestres, o exército vizinho… Evidentemente, a possível preocupação não tem a ver com os danos reais causados, pois estes não existem: tudo é virtual, nada é real.A preocupação tem mais a ver com o efeito da incitação à violência, sobretudo nos mais jovens.
Parte-se da ideia de que eles tendem a imitar o que veem, sobretudo quando, como nos games, não só veem, mas também atuam. No entanto, resolver a questão aceitando isso sem mais e desaprovando esses jogos é uma simplificação bem menos realista do que pode parecer.
Se voltarmos atrás, antes da revolução informática, o que as crianças liam tampouco era pacífico: desde contos em que se devia acabar com o dragão, passando por quadrinhos de façanhas bélicas, até livros com episódios violentos.Isso criou uma geraçãoviolenta? Na verdade não. O fator que aumentou os índices de violência na sociedade foram as drogas.

O equívoco radica na consideração da própria violência. Hoje está na moda pensar que toda violência é imoral, mas não é assim. Goste-se ou não, a violência – medida, controlada, mas apenas a imprescindível – se faz necessáriacomo último recurso para restaurar a justiça e a ordem social. Se não fosse assim, não haveria polícia nem presídio.

O que ocorre com os games? Há que saber distinguir. O herói não é o mesmo que o sádico. Então há que se avaliar e descartar como inconvenientes alguns jogos:os que fazem uso recreativo da violência ou, pior ainda, da crueldade; os que convocam a uma violência gratuita ou, pior, injusta.

O restante é inofensivo? Nem tudo. Acontece com isso – na realidade o fenômeno é o mesmo – algo parecido com o Dom Quixote em relação aos chamados romances de cavalaria. Eles podiam prender a atenção de uma forma que o leitor não vivesse para outra coisa a não ser deixar a imaginação voar com eles. Ou seja, há o risco do vício. Com a maioria dos games este é o perigo real, por isso eles requerem um uso moderado e uma educação que ensine a utilizá-los com temperança (isso vale para as crianças, os jovens e os adultos). Coisa que não é fácil.

Fonte: Comunidade Católica Shalom

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Fé e Cultura - 1

* Política: O bom cristão não salva apenas a sua alma, ele também tenta salvar a sua cultura!


Henrique Raposo

Há sempre um ponto que me desgosta em muitos amigas e amigos católicos: é a distância em relação ao debate público e político, é o nojo fácil pela política. Isso é visível, por exemplo, no Facebook. Ali podemos ver milhentas pessoas a assumir com orgulho a identidade católica e, ao mesmo tempo, a desprezar a identidade política.

Na secção “religious views”, surge triunfante a palavra “católica”. Na secção “political views”, surge um pobre e fácil “não uso disso” ou um “são todos iguais”, etc.
Na revista Communio (Setembro 1988), Francisco Lucas Pires escreveu um artigo que é, para mim, a melhor resposta a esta pobreza apolítica de um certo catolicismo.

Nesta prosa, intitulada “Pureza de Coração e Vida Política”, Lucas Pires afirma que existem duas maneiras de um cristão lidar com a esfera política. A primeira passa por aceitar que os princípios e regras da esfera política são de “outro tipo” e que, por isso, o cristão só deve ter preocupações com a salvação da sua consciência. Ou seja, o cristão deve criar uma redoma à sua volta, retirando-se assim dos debates da Cidade. Nesta via, o cristão julga-se tão puro, que não quer sujar as mãos na realidade.“Sim, sou muito católico, mas não quero nada com a política, são todos iguais”.

Como já perceberam, Francisco Lucas Pires critica esta primeira via, e defende uma alternativa. Para ele um cristão tem o dever de lutar na Cidade, tem o dever de fazer opções públicas e políticas.Porque o leigo não é o padre a viver fora da Cidade. O leigo tem de viver no mundo, tem de produzir e/ou participar numa narrativa normativa para a Cidade, mesmo quando essa Cidade é dura e suja. Sim, a política namora com o pecado e com a mentira, mas – precisamente por causa disso – a política é o terreno propício para se apurar a “pureza de coração”. Só podemos testar a nossa pureza num mundo imperfeito e duro. A redoma apolítica é uma via fácil e pouco cristão.

Portanto, numa lógica algo parecida à de T.S. Eliot, Lucas Pires diz que o cristão tem de tentar influenciar o espaço público, tem de levar os seus valores cristãos para a Cidade. O cristão não tem apenas de salvar a sua consciência: também tem de salvar a sua cultura. O cristão não é apenas um ser metafísico, também é um ser historicamente situado. No fundo, não deve existir uma separação entre a obediência moral (a Cristo, a Deus) e a vida política e colectiva aqui na Cidade dos homens. Pelo contrário: deve existir uma tensão criadora entre a ética cristã e a realidade política.