segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Fé e Razão

História confirma: 

As universidades são 

uma dádiva da Igreja 

católica para o mundo.


17.12-univesidade-de-Bologna

A IGREJA CATÓLICA CRIOU AS UNIVERSIDADES SIM OU NÃO?
Uma resposta ponderada
“A fé na possibilidade da Ciência, gerada, antes do desenvolvimento da teoria científica moderna, constitui uma derivação inconsciente da teologia medieval.” (Alfred North Whitehead).
A Internet é um mundo, às vezes me deparo com coisas surpreendentes, algumas para o bem, outras para o mal. Nessas navegações pelo Facebook, no perfil pessoal de uma jovem protestante conservadora ouvi pela primeira vez o nome Lucas Banzoli, não dei muita confiança. Entretanto, percebi que a jovem em questão estava radicalizando sua posição, tentei debate com elegância e sem radicalismo. Fui expulso do hall de suas amizades. Então, descobri um blog chamado “Heresias Católicas”, pertencente ao Banzoli, o termo “heresias” nome por si só um paradoxo, já que aquele que afirma há uma heresia deve provar primeiro que tem uma ortodoxia ao seu lado. Até aí, nada de novo, já que todos os dias surgem novas “ortodoxias”, cada grupo defende como verdade.
Contudo, não pretendo desconstruir todos os artigos do site, pois não é do meu interesse e nem tenho tempo para isso. Mas efetivamente um artigo me chamou a atenção, que sem apresentar uma historiografia atualizada e pertinente, tenta desmentir a afirmação que a Igreja católica criou as universidades[ii]. No artigo intitulado “A Igreja Católica criou as universidades!!!!”[iii], o autor diz que essa afirmação é de papistas, mais precisamente de Thomas Wood. Peraí! Não é afirmação “errada”, mas fruto da pesquisa de Woods, cuja interpretação pode ser exagerada, mas não imprecisa. O texto de Banzoli tenta menosprezar a afirmação de que a Igreja não inventou as universidades, e eu vou desconstruir isso e faço com uma argumentação baseada em diversos pesquisadores vinculados a História da Ciência (não sei a religião deles e nem procurei saber), como Grant e Haskins. Faço várias considerações, com informações que permitirão ao leitor fazer uma conclusão embasada.
Então, preparei algumas refutações, mas vocês perceberão que fujo bastante das indagações do site. Isto se deve a minha proposta de não ficar só questionando as afirmações do artigo em questão, mas de apresentar coisas novas vinculadas a uma historiografia moderna (que não é tão moderna assim). Então, vamos algumas contestações:
  • Uma das afirmações é que UNESCO cita que a primeira universidade do mundo foi a Universidadeal Quaraouiyine, digo que é completamente contestável. Há vários poréns nisso, As “universidades” islâmicas era madrassas (GRANT 2009, p. 123), centros de estudo religioso, e apesar da Europa dever aos comentaristas muçulmanos de Aristóteles, a filosofia natural no mundo islâmico já havia caído em declínio devido as imposições teológicas o Islã (Idem, p. 121). A ciência islâmica já estava em decadência. Dizer, como a UNESCO, que as primeiras universidades nasceram no mundo muçulmano é mais um posicionamento político da instituição do que um fato histórico.
  • A acusação ao Trivium é descabida, que já existia desde Antiguidade, aperfeiçoado e padronizado pelos pensadores vinculados a Igreja durante a Idade Média. O autor não afirma que o estudo das artes liberais foi invenção da Igreja, mas que seu ensino nas Universidades era apenas um simples jogo de retórica. Por que é descabido? Porque usa o Trivium como falácia do espantalho, as universidades não apenas estudavam-no como também a filosofia natural aristotélica, a partir do século XII. Podemos deduzir, por causa disso que o estudo das artes liberais não era um entrave ao conhecimento científico. Hoje finalmente temos acesso, em português, a obras sobre o Triviume o Quatrivium pela editora É Realizações. Sua publicação já é uma vitória contra o desprezo que a academia brasileira tem ao conhecimento medieval levando a um público especializado e não-especializado a riqueza de nossas tradições.
  • Cita o padre Claude Fleury, um pré-iluminista e janseanista (por isso sua visão tão pessimista), autor de uma obra de mais de 400 anos, fonte de boa parte do artigo. A obra é crítica a igreja, recebeu até elogio de Voltaire (isso diz muito). A Historiografia atual, moderna procurou ser livre do ranço dos preconceitos iluministas e liberais. Hoje, a renovação da escrita histórica quebra com muito dos preconceitos sobre a Igreja Católica. Podemos perceber, no artigo do Banzoli, uma bibliografia uma historiografia antiquada, sendo que a obra mais recente citada tem 72 anos.
  • As universidades, as catedrais e os parlamentos são frutos da Idade Média (HASKINS, 2015, p.17). Há vários erros como, por exemplo, usar como fonte um livro sobre as Cruzadas, de 1944, onde ele retira partes do texto para evidenciar a falta de cultura na Idade Média. Segundo a opinião de um professor medievalista da Federal do Espírito Santo sobre o livro: “Na ocasião, eu o li quase como um romance, pois, apesar de conter informações verdadeiras, o autor não indica as fontes.” A bibliográfica é antiga e desatualizada. Impresso muito antes das reformas do ensino de história brasileiro
  • Se a igreja Católica não criou (no pior dos casos), pelo menos apoiou, supervisionou, padronizou, deu aval e subsidiou. As universidades têm seu núcleo inicial nas guildas medievais de estudantes e professores. Isso na renovação cultural dos séculos XII (HASKINS, 2015, p. 20). Os imperadores e os Papas deram legitimidades a essas instituições, e por muitas vezes gerenciaram os conflitos entre os estudantes e a população local, muitas vezes belicoso (não é que estudante é o mesmo não importa a época?).
  • O que nos diz uma literatura como a de Edward Grant? Grant no escreve que a criação das universidades foi um evento único na História da Europa Ocidental, mas também único na História do mundo (GRANT, 2009, p. 190). As universidades de Bolonha, Oxford e Paris foram as primeiras. Claro que nenhuma universidade poderia ser fundada sem uma congregação de professores e aluno relativamente grande, e a universidades foram um fenômeno urbano. A Igreja e o Estado na idade Média tornaram possível que indivíduos formassem corporações que como entidades ficcionais e com direitos legais (Idem, p. 191). As universidades medievais permitiram uma estabilidade para o ensino de filosofia natural, e isto permitiu que se desenvolvesse nas quatros áreas que a compunha, artes, teologia, medicina e direito (Idem, p. 191).
  • Ainda há uma acusação de as aulas não eram nada científicas e voltadas a mistérios metafísicos. Outro engano, por exemplo, e o do católico Galileu que influenciado pelo seu mentor Francesco Buonamici, Galileu acreditava em respeitar o papel fundamental da experiência e estabelecer regras para conhecer os fenômenos. Na revista da Scientifican American, edição especial sobre Galileu Galileino seu segundo capítulo intitulado “o mundo sensível”, chama a atenção a declaração de que a filosofia natural, do século XVII, havia abandonado a metafísica para explicar os fenômenos. Entretanto, essa separação já era observada há algum tempo pela academia, desde o surgimento das universidades medievais, segundo Edward Grant.
  • Segundo o professor de matemática Alfred North Whitehead (1861-1947) três os fatores que chamam atenção para uma mudança de paradigma que aconteceu no século XVI e XVII: o aparecimento da (nova) matemática; a crença em uma ordem na natureza; e o racionalismo da alta Idade Média (WHITEHEAD, 2006, p. 57). Esses fatores levam ao abandono dos antigos métodos para o estudo baseado em dados empíricos.
Os últimos parágrafos do texto são repletos de ódio ao catolicismo e de triunfalismo protestante, vamos a algumas verdades: não foi a Reforma Protestante que deu algum avanço social e econômico aos países protestantes, foi a Revolução Industrial. E a Revolução Industrial não foi um movimento ocasionado por melhorias educacionais nesses países por causa da leitura da Bíblia. Até o final do século XIX esses países do norte da Europa continham uma grande massa de analfabetos. A Revolução industrial que deu a esses países as melhorias, que nasceu da necessidade metalista, do acumulo de ouro e prata, coisa que a Inglaterra por não ter colônias ricas em metais preciosos se especializou para obtê-los através do comercio e da industrialização. Esses eram movidos pelo lucro e as descobertas científicas eram motivadas por isso também. Claro que houve avanços educacionais nos países protestantes, porém, em tese é a educação universitária a ponta de lança de qualquer transformação econômica de um país.[iv]
Enfim, não estamos dizendo que a Igreja católica foi a única responsável pela criação das universidades, mas sem ela as universidades não existiriam. Contundo, nascem num ambiente cultural fomentado pela Igreja e pelo renascimento urbano. As guildas de estudantes e professores jamais teriam sucesso sem o apoio e a universalização que a Igreja fez por toda a Europa. O que posso dizer é que invés de ficar procurando triunfalismo para um ou outro ramo no cristianismo é necessário ser dialético no estudo do passado. Não adianta denegrir um para colocar no pódio mais alto o outro, porque a história vai derrubar as certezas, ainda mais quando estudada com cuidado e respeito às fontes.
Bibliografia
GRANT, Edward. História da Filosofia Natural: do mundo antigo ao século XIX. São Paulo: Masdras, 2009.
HASKINS, Charles Homer. A Ascensão das Universidades. Balneário Camboriú: Livraria Danúbio Editora, 2015.
NUMBER, Ronald L (org.). Galileu na Prisão: e outros mitos sobre ciência e Religião. Lisboa: Gradiva, 2012.
WHITEHEAD, Alfred North. A ciência e o mundo moderno. São Paulo: Paulus, 2006.
Por Rogério Fernandes da Silva[i]
[i] Licenciado em História (UERJ) e professor de História da rede pública estadual do RJ, Mestre em Ciências da Religião (PUC-SP), Doutorando em Humanidades, Culturas e Artes (UNIGRANRIO).
[ii] O termo universidade vem de universitas societas masgistrorum discipulorunque , nome dado as guildas de mestres e estudantes (HASKINS, 2015, p.25).
[iv] Dois exemplos no século XX são a Índia e Brasil, o primeiro país fez um reforma educacional priorizando o ensino superior, ao ponto, nas  décadas de oitenta, países ocidentais, como EUA e Inglaterra, importarem cientistas indianos para seus grandes centros universitários. A Índia reformou o Ensino Superior, mas não acabou com a grande desigualdade social de seu país. Mas o Ensino Superior a transformou numa potência regional.  O Brasil durante o período de crescimento (2002-2010) passou por problemas relativos a mão-de-obra, não havia mão-de-obra qualificada para as indústrias e tivemos que importar. Isso é um indicativo que um país pode crescer sem está preparado no quesito base educacional, visto que o Brasil não investia qualitativamente em sua base de ensino a anos. Povo mais alfabetizado não gera riqueza, é preciso investimento em tecnologia que se alcança num nível universitário, ou seja, pesquisa acadêmica de ponta.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Fé e Razão




“É possível acreditar em Deus usando 

a razão”, afirma William Lane Craig.



Quando o escritor britânico Christopher Hitchens, um dos maiores defensores do ateísmo, travou um longo debate nos Estados Unidos, em abril de 2009, com o filósofo e teólogo William Lane Craig sobre a existência de Deus, seus colegas ateus ficaram tensos. Momentos antes de subir ao palco, Hitchens — que morreu de dezembro de 2011, aos 62 anos — falou a jornalistas sobre a expectativa de enfrentar Craig.


“Posso dizer que meus colegas ateus o levam bem a sério”, disse. “Ele é considerado um adversário muito duro, rigoroso, culto e formidável”, continuou. “Normalmente as pessoas não me dizem ‘boa sorte’ ou ‘não nos decepcione’ antes de um debate — mas hoje, é o tipo de coisa que estão me dizendo”. Difícil saber se houve um vencedor do debate. O certo é que Craig se destaca pela elegância com que apresenta seus argumentos, mesmo quando submetido ao fogo cerrado.
O teólogo evangélico é considerado um dos maiores defensores da doutrina cristã na atualidade. Craig, que vive em Atlanta (EUA) com a esposa, sustenta que a existência de Deus e a ressurreição de Jesus, por exemplo, não são apenas questões de fé, mas passíveis de prova lógica e racional. Em seu currículo de debates estão o famoso químico e autor britânico Peter Atkins e o neurocientista americano Sam Harris (veja lista com vídeos legendados de Craig). Basta uma rápida procura no Youtube para encontrar uma vastidão de debates travados entre Craig e diversos estudiosos.

Richard Dawkins, um dos maiores críticos do teísmo, ainda se recusa a discutir com Craig sobre a existência de Deus. (Seria medo? 


Em artigo publicado no jornal inglês The Guardian, Dawkins afirma que Craig faz apologia ao genocídio, por defender passagens da Bíblia que justificam a morte de homens, mulheres e crianças por meio de ordens divinas. “Vocês apertariam a mão de um homem que escreve esse tipo de coisa? Vocês compartilhariam o mesmo palco que ele? Eu não, eu me recuso”, escreveu. Na entrevista abaixo, Craig fala sobre o assunto.

Autor de diversos livros —  entre eles Em Guarda – Defenda a fé cristã com razão e precisão(Ed. Vida Nova), lançado no fim de 2011 no Brasil, — Craig é doutor em filosofia pela Universidade de Birmingham, na Inglaterra, e em teologia pela Universidade de Munique, Alemanha. O filósofo esteve no Brasil para o 8º Congresso de Teologia da Editora Vida Nova, em Águas de Lindóia, entre 13 e 16 de março. Durante o simpósio, Craig deu palestras e dedicou a última apresentação a atacar, ponto a ponto, os argumentos de Richard Dawkins sobre a inexistência de Deus.
Por que deveríamos acreditar em Deus?
Porque os argumentos e evidências que apontam para a Sua existência são mais plausíveis do que aqueles que apontam para a negação. Vários argumentos dão força à ideia de que Deus existe.
Ele é a melhor explicação para a existência de tudo a partir de um momento no passado finito, e também a para o ajuste preciso do universo, levando ao surgimento de vida inteligente.

Deus também é a melhor explicação para a existência de deveres e valores morais objetivos no mundo. Com isso, quero dizer valores e deveres que existem independentemente da opinião humana. 


Se Deus é bondade e justiça, por que ele não criou um universo perfeito onde todas as pessoas vivem felizes?

Acho que esse é o desejo de Deus. É o que a Bíblia ensina. O fato de que o desejo de Deus não é realizado implica que os seres humanos possuem livre-arbítrio. Não concordo com os teólogos que dizem que Deus determina quem é salvo ou não. Parece-me que os próprios humanos determinam isso. A única razão pela qual algumas pessoas não são salvas é porque elas próprias rejeitam livremente a vontade de Deus de salvá-las.


Alguns cientistas argumentam que o livre-arbítrio não existeSe esse for o caso, as pessoas poderiam ser julgadas por Deus?
Não, elas não poderiam. Acredito que esses autores estão errados. É difícil entender como a concepção do determinismo pode ser racional. Se acreditarmos que tudo é determinado, então até a crença no determinismo foi determinada. Nesse contexto, não se chega a essa conclusão por reflexão racional. Ela seria tão natural e inevitável como um dente que nasce ou uma árvore que dá galhos. Penso que o determinismo, racionalmente, não passa de absurdo. Não é possível acreditar racionalmente nele. Portanto, a atitude racional é negá-lo e acreditar que existe o livre-arbítrio.
O senhor defende em seu site uma passagem do Velho Testamento em que Deus ordena a destruição da cidade de Canaã, inclusive autorizando o genocídio, argumentando que os inocentes mortos nesse massacre seriam salvos pela graça divina. Esse não é um argumento perigosamente próximo daqueles usados por terroristas motivados pela religião?

A teoria ética desses terroristas não está errada. Isso, contudo, não quer dizer que eles estão certos. O problema é a crença deles no deus errado. O verdadeiro Deus não ordena atos terroristas e, portanto, eles estariam cometendo uma atrocidade moral. Quero dizer que se Deus decide tirar a vida de uma pessoa inocente, especialmente uma criança, a Sua graça se estende a ela. 


Se o terrorista é cristão o ato terrorista motivado pela religião é justificável, por ele acreditar no Deus ‘certo’?
Não é suficiente acreditar no deus certo. É preciso garantir que os comandos divinos estão sendo corretamente interpretados. Não acho que Deus dê esse tipo de comando hoje em dia. Os casos do Velho Testamento, como a conquista de Canaã, não representam a vontade normal de Deus.
O sr. está querendo dizer que Deus também está sujeito a variações de humor? Não é plausível esperar que pelo menos Ele seja consistente?

Penso que Deus pode fazer exceções aos comandos morais que dá. O principal exemplo no Velho Testamento é a ordem que ele dá a Abraão para sacrificar seu filho Isaque. Se Abraão tivesse feito isso por iniciativa própria, isso seria uma abominação. O deus do Velho Testamento condena o sacrifício infantil. Essa foi uma das razões que o levou a ordenar a destruição das nações pagãs ao redor de Israel. Elas estavam sacrificando crianças aos seus deuses. E, no entanto, Deus dá essa ordem extraordinária a Abraão: sacrificar o próprio filho Isaque. Isso serviu para verificar a obediência e fé dele. Mas isso é a exceção que prova a regra. Não é a forma normal com que Deus conduz os assuntos humanos. Mas porque Deus é Deus, Ele tem a possibilidade de abrir exceções em alguns casos extremos, como esse. 


O sr. disse que não é suficiente ter o deus certo, é preciso fazer a interpretação correta dos comandos divinos. Como garantir que a sua interpretação é objetivamente correta?

As coisas que digo são baseadas no que Deus nos deu a conhecer sobre si mesmo e em preceitos registrados na Bíblia, que é a palavra d’Ele. Refiro-me a determinações sobre a vida humana, como “não matarás”. Deus condena o sacrifício de crianças, Seu desejo é que amemos uns ao outros. Essa é a Sua moral geral. Seria apenas em casos excepcionalmente extremos, como o de Abraão e Isaque, que Deus mudaria isso. Se eu achar que Deus me comandou a fazer algo que é contra o Seu desejo moral geral, revelado na escritura, o mais provável é que eu tenha entendido errado. Temos a revelação do desejo moral de Deus e é assim que devemos nos comportar.


O sr. deposita grande parte da sua argumentação no conteúdo da Bíblia. Contudo, ela foi escrita por homens em um período restrito, em uma área restrita do mundo, em uma língua restrita, para um grupo específico de pessoas. Que evidência se tem de que a Bíblia é a palavra de um ser sobrenatural?

A razão pela qual acreditamos na Bíblia e sua validade é porque acreditamos em Cristo. Ele considerava as escrituras hebraicas como a palavra de Deus. Seus ensinamentos são extensões do que é ensinado no Velho Testamento. Os ensinamentos de Jesus são direcionados à era da Igreja, que o sucederia. A questão, então, se torna a seguinte: temos boas razões para acreditar em Jesus? Ele é quem ele diz ser, a revelação de Deus? Acredito que sim. A ressurreição dos mortos, por exemplo, mostra que ele era quem afirmava.


Existem provas que confirmem a ressurreição de Jesus?
Temos boas bases históricas. A palavra ‘prova’ pode ser enganosa porque muitos a associam com matemática. Certamente, não temos prova matemática de qualquer coisa que tenha acontecido na história do homem. Não temos provas, nesse sentido, de que Júlio César foi assassinado no senado romano, por exemplo, mas temos boas bases históricas para isso.
Meu argumento é que se você considera os documentos do Novo Testamento como fontes da história antiga, — como os historiadores gregos Tácito, Heródoto ou Tucídides — o evangelho aparece como uma fonte histórica muito confiável para a vida de Jesus de Nazaré. A maioria dos historiadores do Novo Testamento concorda com os fatos fundamentais que balizam a inferência sobre a ressurreição de Cristo. Coisas como a sua execução sob autoridade romana, a descoberta das tumbas vazias por um grupo de mulheres no domingo depois da crucificação e o relato de vários indivíduos e grupos sobre os aparecimentos de Jesus vivo após sua execução. Com isso, nos resta a seguinte pergunta: qual é a melhor explicação para essa sequência de acontecimentos? Penso que a melhor explicação é aquela que os discípulos originais deram — Deus fez Jesus renascer dos mortos.

Não podemos falar de uma prova, mas podemos levantar boas bases históricas para dizer que a ressurreição é a melhor explicação para os fatos. E como temos boas razões para acreditar que Cristo era quem dizia ser, portanto temos boas razões para acreditar que seus ensinamentos eram verdade. Sendo assim, podemos ver que a Bíblia não foi criação contingente de um tempo, de um lugar e de certas pessoas, mas é a palavra de Deus para a humanidade.


O textos da Bíblia passaram por diversas revisões ao longo do tempo. Como podemos ter certeza de que as informações às quais temos acesso hoje são as mesmas escritas há 2.000 anos? Além disso, como lidar com o fato de que informações podem ser perdidas durante a tradução?
Você tem razão quanto a variedade de revisões e traduções. Por isso, é imperativo voltar às línguas originais nas quais esses textos foram escritos. Hoje, os críticos textuais comparam diferentes manuscritos antigos de modo a reconstruir o que os originais diziam.

O Novo Testamento é o livro mais atestado da história antiga, seja em termos de manuscritos encontrados ou em termos de quão próximos eles estão da data original de escrita.Os textos já foram reconstruídos com 99% de precisão em relação aos originais. As incertezas que restam são trivialidades. Por exemplo, na Primeira Epístola de João, ele diz: “Estas coisas vos escrevemos, para que o vosso gozo se cumpra”. Mas alguns manuscritos dizem: “Estas coisas vos escrevemos, para que o nosso gozo se cumpra”. Não temos certeza se o texto original diz ‘vosso’ ou ‘nosso’. Isso ilustra como esse 1% de incerteza é trivialAlguém que realmente queira entender os textos deverá aprender grego, a língua original em que o Novo Testamento foi escrito. Contudo, as pessoas também podem comprar diferentes traduções e compará-las para perceber como o texto se comporta em diferentes versões.

É possível explicar a existência de Deus apenas com a razão? Qual o papel da ciência na explicação das causas do universo?

A razão é muito mais ampla do que a ciência. A ciência é uma exploração do mundo físico e natural. A razão, por outro lado, inclui elementos como a lógica, a matemática, a metafísica, a ética, a psicologia e assim por diante. Parte da cegueira de cientistas naturalistas, como Richard Dawkins, é que eles são culpados de algo chamado ‘cientismo’. Como se a ciência fosse a única fonte da verdade. Não acho que podemos explicar Deus em sua plenitude, mas a razão é suficiente para justificar a conclusão de que um criador transcendente do universo existe e é a fonte absoluta de bondade moral. 


Por que o cristianismo deveria ser mais importante do que outras religiões que ensinam as mesmas questões fundamentais, como o amor e a caridade?

As pessoas não entendem o que é o cristianismo. É por isso que alguns ficam tão ofendidos quando se prega que Jesus é a única forma de salvação. Elas pensam que ser cristão é seguir os ensinamentos éticos de Jesus, como amar ao próximo como a si mesmo. É claro que não é preciso acreditar em Jesus para se fazer isso. Isso não é o cristianismo. O evangelho diz que somos moralmente culpados perante Deus. Espiritualmente, somos separados d’Ele. É por isso que precisamos experimentar Seu perdão e graça. Para isso, é preciso ter um substituto que pague a pena dos nossos pecados. Jesus ofereceu a própria vida como sacrifício por nós. Ao aceitar o que ele fez em nosso nome, podemos ter o perdão de Deus e a limpeza moral. A partir disso, nossa relação com Deus pode ser restaurada. Isso evidencia por que acreditar em Cristo é tão importante. Repudiá-lo é rejeitar a graça de Deus e permanecer espiritualmente separado d’Ele. Se você morre nessa condição você ficará eternamente separado de Deus. Outras religiões não ensinam a mesma coisa. 


A crença em Deus é necessária para trazer qualidade de vida e felicidade?

Penso que a crença em Deus ajuda, mas não é necessária. Ela pode lhe dar uma fundação para valores morais, propósito de vida e esperança para o futuro. Contudo, se você quiser viver inconsistentemente, é possível ser um ateu feliz, contanto que não se pense nas implicações do ateísmo. Em última análise, o ateísmo prega que não existem valores morais objetivos, que tudo é uma ilusão, que não há propósito e significado para a vida e que somos um subproduto do acaso.


Por que importa se acreditamos no deus do cristianismo ou na ‘mãe natureza’ se na prática as pessoas podem seguir, fundamentalmente, os mesmos ensinamentos?
Deveríamos acreditar em uma mentira se isso for bom para a sociedade?
As pessoas devem acreditar em uma falsa teoria, só por causa dos benefícios sociais? Eu acho que não. Isso seria uma alucinação. Algumas pessoas passam a acreditar na religião por esse motivo. Já que a religião traz benefícios para a sociedade, mesmo que o indivíduo pense que ela não passa de um ‘conto de fadas’, ele passa a acreditar. Digo que não. Se você acha que a religião é um conto de fadas, não acredite. Mas se o cristianismo é a verdade — como penso que é — temos que acreditar nele independente das consequências. É o que as pessoas racionais fazem, elas acreditam na verdade.
A  via contrária é o pragmatismo. “Isso Funciona?”, perguntam elas. “Não importa se é verdade, quero saber se funciona”. Não estou preocupado se na Suécia alguns são felizes sem acreditar em Deus ou se há alguma vantagem em acreditar n’Ele. Como filósofo, estou interessado no que é verdade e me parece que a existência desse ser transcendente que criou e projetou o universo, fonte dos valores morais, é a verdade.

Fonte: Revista Veja